Olá pessoas! Estou inaugurando meu blog com um texto que eu fiz para o jornal da faculdade em comemoração aos 40 anos de Woodstock. O texto tá bem grandinho, mas a história vale à pena. Quem tiver paciência, aproveite a leitura!
ahaha
;)


Morador de Itanhaém recorda o festival de Águas Claras, no interior de são Paulo, uma tentativa de reedição do espírito de Woodstock



Em 1975, na fazenda Santa Virginia, na cidade paulista de Iacanga, a 400 quilômetros da capital, acontecia a primeira edição do Festival de Águas Claras. Em pelo menos um aspecto o Woodstock tupiniquim superou o modelo original, pois chegou a ter quatro edições.
O técnico em sistemas de segurança, Carlos Alberto de Carvalho Maria, tinha 16 anos, morava em Itanhaém e ficou sabendo do festival por causa dos cartazes espalhados pela cidade. O que o levou a Iacanga foram as atrações musicais: Mutantes, Walter Franco e O terço, entre outros. “A primeira edição foi uma tentativa frustrada de reeditar o Woodstock, marcada pela desorganização. No segundo dia, a falta de água e comida quase liquidou a celebração. Isso porque em 1975 foram poucas pessoas que compareceram. Creio que no máximo umas quatro mil. O que lembrou mais o festival estadunidense foi a presença dos hippies em peso”, conta Carvalho.
Embora ainda não tivesse alcançado a essência de Woodstock, a edição de 1975 reuniu nomes da música popular brasileira que estavam no auge: Walter Franco, O terço, Som Nosso de Cada Dia, Terreno Baldio, Apokalypsis, Mutantes, Ursa Maior, Moto Perpétuo, Jazco, Tibet, Burmah, Grupo Capote, Jorge Mautner, Acaru Raízes, Corpus, Mitra, Marcus Vinicius, Nushkurallah e Rock da Mortalha.
Com mais de uma década de atraso, em 1981, a segunda edição do Águas Claras atraiu 60 mil jovens, quase todos com menos de 25 anos, que puderam sentir o verdadeiro clímax — segundo críticos da época — que cercava o Woodstock estadunidense. “Em 81 eu já estava com 21 anos, e me impressionei com o grande número de pessoas. Eu nunca havia visto tanto maluco junto por metro quadrado. Fazíamos coisas que seriam impossíveis de se fazer fora daquela fazenda, como andar nus sem nos incomodarmos ou sermos incomodados. O uso de maconha era algo mais do que normal ali. Se fumava na frente da polícia e não acontecia nada. Lembro de duas meninas sendo fotografadas fumando em cima do capô de uma baratinha da PM — ou rádio patrulha. Botavam medo nas pessoas fora dali, e os três policiais militares ao lado delas apenas se afastaram para não saírem nas fotos”.
Carvalho conta ainda que o pessoal tomava banho na represa nu e ninguém mexia com ninguém, o respeito era absoluto. Imagine uma mulher tomando banho nua em uma lagoa e não ouvir sequer uma gracinha? Coisa impossível nos dias de hoje. Em 81 fazia muito calor de dia e muito frio à noite. De manhãzinha, quando acordávamos e olhávamos para o campo, era impressionante o número de malucos procurando cogumelos”, recorda.
A multidão de jovens seguiu para Iacanga em 1981 guiada pelo brilho de grandes estrelas da música brasileira, como Gilberto Gil, Raul Seixas, Luiz Gonzaga, Alceu Valença, 14 Bis, Moraes Moreira, Hermeto Paschoal, Egberto Gismonti, A Cor do Som, Bendegó, Papete, Almir Sater, Duduca e Dalvan, Consertão, Oswaldinho, Diana Pequeno, Novos Valores, Tetê Spindola.
“Os shows mais marcantes começaram com Raul Seixas subindo ao palco na madrugada, muito doidão, esquecendo as letras das músicas, mas a galera não deixava por menos, cantava por ele. Hermeto Paschoal fez um som totalmente louco com panelas, garrafas e pedaços de cano. Tetê Spindola cantou Escrito nas Estrelas música que havia acabado de ganhar um festival na TV. O 14 Bis impactou simplesmente por estar no auge do rock nacional, e Egberto Gismonti alucinou a galera com um piano, tocando música erudita”, relembra.
“Para chegar à fazenda precisei fazer algumas baldeações. O trem com destino a Bauru, saiu da estação Luz, em São Paulo, lotado. Os senhores da época ficavam assustados com aquele monte de maluco, cantando sem parar "Viva, viva, viva a sociedade alternativa", e a cada parada que o trem dava mais malucos subiam em um trem que já não cabia mais ninguém. A caminho da cidade de Iacanga, uma multidão fazia um percurso de mais ou menos 10 quilômetros a pé, e as viaturas obrigavam a galera a caminhar no acostamento. Lembro-me que qualquer coisa que aparecia, se locomovendo sobre rodas, era alvo da multidão, que corria para se pendurar e encurtar a caminhada. No retorno para casa, a maioria do pessoal estava sem dinheiro. Ao chegar à estação de trem, os guardas da estação bem que tentaram: fecharam os portões, mas a galera simplesmente derrubou-o, se instalando no trem. O maquinista se recusava a sair dali com aquele monte de maluco dentro do trem, mas nós éramos pacientes. Só depois de umas quatro ou cinco horas é que, por determinação do prefeito da cidade, é que o trem partiu”, conta Carvalho ao reconstruir parte da viagem.
Na edição de 1983 chovia muito e havia muita lama na fazenda. O próprio Raul Seixas só conseguiu chegar à fazenda a bordo de um trator. E apesar da chuva, da lama e do frio, 40 mil pessoas se reuniram para mais celebração. Os quatro dias de festa reuniram Armandinho e o Trio Elétrico de Dodô e Osmar, Arthur Moreira Lima, Egberto Gismonti, Fagner, Grupo Premê, Jorge Mautner, Sandra Sá, Moraes Moreira, Oswaldinho, Paulinho da Viola, Paulinho Boca de Cantor, Raul Seixas, Sá e Guarabira, Expresso Rural, Sivuca, Wanderléia, Walter Franco, Erasmo Carlos, Wagner Tiso e João Gilberto.
“Em 83 eu fui de moto. Imaginem uma viagem de 600 quilômetros com uma Yamaha "TT", vulgo "toda torta", com uma barraca amarrada na frente do pára-lama dianteiro, uma mochila colocada na minha frente, com uma menina na garupa e outra mochila com mantimentos (miojo, macarrão, sardinha em lata, feijoada em lata e tudo mais que não fosse perecível), e para completar um monte de cobertores, travesseiros e panelas penduradas naquele espaçozinho atrás da moto? Aquilo sim foi uma viagem. Este foi o único festival em que eu paguei o ingresso, por causa da moto, das outras vezes sempre dava um jeito de pular a cerca, fugindo dos policiais, dos seguranças e dos cachorros. Era uma aventura e tanto tentar entrar na fazenda desta forma. Porém, não me entusiasmei muito com aquela edição, já era macaco velho. Já a menina que foi comigo quase enlouqueceu de tanta empolgação”, lembra.
Para ele, João Gilberto foi a grande surpresa deste festival. Ele é conhecido por ser um artista chato, se espantou, pois esperava ser vaiado: “Mas o comportamento da multidão o surpreendeu, a ponto de em determinado momento ele perguntar ao público se aquela era a tão falada sociedade alternativa. Empolgou-se tanto que tocou até o dia amanhecer”.
Carlos Alberto Carvalho só não compareceu à última edição de Águas Claras. Na época era carnaval e ele estava abrindo uma discoteca na cidade de Itariri: “Não posso dizer que aprendi muita coisa com o festival, apenas pude constatar que o mundo seria muito melhor se todos tivessem ao menos o espírito de paz das pessoas que compareceram a essa grande celebração. Mostramos ao mundo e, ao Brasil, principalmente, como os malucos podiam conviver pacificamente. Em todas as edições que fui não houve uma briga sequer, não houve um só boletim de ocorrência, não haviam furtos, todos eram da paz”. Ele, que foi a Águas Claras sem imaginar que o festival poderia fazer jus a algo como o Woodstock, hoje guarda lembranças de fotos suas publicadas nas revistas Veja e Manchete.

Foto ¹: Carlos,nu, assustado com a proximidade do boi, se abaixando para pegar suas roupas. Foto da revista Veja
Foto ²: Carlos Alberto tocando uma "scaleta" (piano de sopro). Foto extraída da revista Manchete.





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